Sobre mim

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Daniel Mustafa (1976)

Nasci em 1976, em Paraguaçu Paulista, interior de São Paulo, e ainda na infância me mudei para Curitiba, cidade onde descobri minha vocação artística nas aulas de arte da escola. No entanto, acredito que minha formação começou muito antes, dentro de casa.

Cresci cercado por uma tradição de fazeres manuais. Meu avô paterno, imigrante português, dedicou sua vida à alfaiataria, imprimindo precisão e sensibilidade em cada peça que produzia. Minha avó paterna presenteava os netos com bonecos de tricô que atravessam gerações como heranças afetivas. Já minha avó materna sustentou a família por meio do tricô e do crochê, revelando que o trabalho manual pode ser, ao mesmo tempo, sustento, identidade e expressão cultural. Essas experiências formaram minha percepção sobre a potência simbólica dos materiais e sobre o valor daquilo que é construído pelas mãos.

Minha trajetória profissional começou na moda, criando roupas autorais que deram origem à minha própria marca. Formei-me em Desenho Industrial pela PUC-PR e, posteriormente, fundei o estúdio Mustafari, onde desenvolvi campanhas ilustradas premiadas no mercado publicitário. Em paralelo, frequentei o Museu da Gravura de Curitiba, aprofundando minha pesquisa em xilogravura e serigrafia. Foi nesse período que compreendi a materialidade como linguagem e passei a enxergar o processo como parte inseparável da obra.

O mar, entretanto, redefiniu meu percurso. Desde criança, o litoral foi minha segunda casa. A prática dos esportes aquáticos me levou a conhecer diversas comunidades costeiras e seus modos de vida, despertando meu interesse pelas relações entre território, cultura e trabalho. Ao escolher viver em Penha, no litoral norte de Santa Catarina, encontrei na comunidade de pescadores da Armação um lugar onde minha experiência de vida e minha pesquisa artística passaram a se entrelaçar.

Meu olhar se volta para aqueles que, muitas vezes, permanecem à margem da história oficial. Interesso-me pelos saberes cotidianos, pelas tradições populares e pelas pessoas cuja memória raramente ocupa os espaços institucionais. Acredito que preservar essas narrativas é também uma forma de resistência.

É nesse contexto que encontro minha principal matéria-prima. Utilizo resíduos descartados pela pesca artesanal, pela construção naval e pela construção civil. Cordas, redes, madeiras, lonas e plásticos recolhidos no território onde vivo. No descarte encontro cor, forma, textura e memória. Interesso-me pelo indesejado, por aquilo que perdeu sua função econômica, mas preserva as marcas do tempo, do trabalho e da experiência humana.

Minha produção investiga a capacidade desses materiais de carregar narrativas e de produzir novas camadas de significado. Ao ressignificá-los em tapeçarias, esculturas, instalações e painéis, proponho um diálogo entre o artesanato herdado da minha história familiar e os saberes das comunidades costeiras, aproximando arte contemporânea, memória social e cultura material.

Sinto que minha prática artística é atravessada por um compromisso ético e estético diante das injustiças sociais e da destruição ambiental. Não utilizo o descarte apenas por seu potencial plástico, mas por compreender que ele evidencia as relações entre consumo, invisibilidade, trabalho e pertencimento. Cada fragmento que recolho guarda vestígios de vidas, ofícios e paisagens em constante transformação.

Ao longo dessa trajetória, meu trabalho foi acolhido pela comunidade onde vivo e passou a integrar exposições em cidades como São Paulo, Limeira, Porto Alegre, Niterói e Penha. Mais do que apresentar objetos, procuro construir espaços de memória, valorizando histórias de vida e defendendo a preservação dos conhecimentos socioculturais das comunidades tradicionais. Acredito que a arte pode ampliar a visibilidade dessas narrativas e contribuir para uma relação mais sensível entre as pessoas, o território e o meio ambiente.

Atelier

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